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16
Mar 09

Um tempo de oportunidades e riscos. Assim pode ser descrita a adolescência, uma etapa de transição entre a infância e a idade adulta que tem pouco de pacífica. Tudo começa com a puberdade, a revolução operada pelas hormonas no corpo de rapazes e raparigas, preparando-os para serem homens e mulheres. Mas também fazendo-os despertar para uma nova realidade: a sexualidade, em que estão em jogo todos os sentimentos e todas as emoções e à espreita desafios inesperados e riscos conhecidos mas negligenciados. É um mundo confuso o dos adolescentes: a busca da identidade pode levá-los por caminhos arriscados, como os dos distúrbios alimentares ou os do álcool e das drogas. Arriscados mas não inevitáveis: com informação é possível fazer escolhas saudáveis.

 

 
Revolução dos pés à cabeça
 
É o que acontece na puberdade e adolescência: uma nova fase da vida repleta de transformações a nível físico, psicológico e social. O corpo ganha os contornos do género, criam-se novos vínculos afectivos, desenvolvem-se novos interesses, afirmam-se atitudes e busca-se a independência. No meio, anda-se um pouco à deriva, entre o mundo da infância e o dos adultos.
 
Não há crescimento sem mudança. E a primeira das grandes mudanças acontece com a puberdade, o momento em que, biologicamente, se evidenciam as diferenças de género: a criança vai desaparecendo para dar lugar a um homem ou a uma mulher. Este corte com a infância é reforçado pelo emergir de uma nova forma de ver a vida e de estar na vida: a adolescência, etapa que marca, psicológica e socialmente, a transição para a idade adulta.
São anos conturbados os da puberdade e adolescência. As mudanças são, a qualquer dos níveis em que ocorrem, perturbadoras. Desde logo, porque o corpo está a mudar, gerando sentimentos contraditórios. Pode acontecer que o adolescente se sinta bem com os novos contornos, mas pode igualmente sentir-se desconfortável, não se reconhecendo na figura que o “olha” do espelho. Não admira que assim seja.
A “culpa” é das hormonas. O corpo das raparigas ganha peso e altura, as ancas alargam-se e arredondam-se, os seios desenvolvem-se e começam a crescer os pêlos púbicos, a pele fica mais oleosa e as glândulas sudoríparas tornam-se mais activas.
Até que acontece a primeira menstruação — a menarca, que oficialmente marca o início da puberdade e, com ela, da capacidade reprodutiva.
Também os rapazes ficam mais altos e mais fortes. Os ombros e o peito alargam-se, os músculos desenvolvem-se, o pénis e os testículos crescem, começando a produzir esperma, e surgem os pêlos púbicos.
À medida que o tempo passa, a voz vai ficando mais grossa, ainda que, de quando em vez, se libertem sons agudos, muito distintivos.
No peito, podem irromper alguns pêlos e os dos braços e pernas ficam mais fortes.
As glândulas sudoríparas entram em acção.
E as primeiras ejaculações (os chamados sonhos molhados) surpreendem na noite.
Perante tantas mudanças, é natural que o adolescente se questione. O tempo é de descobertas e expectativas, de dúvidas e angústias. É que com a feminilidade e a masculinidade fisiológica, as raparigas e os rapazes vão tomando consciência de si próprios como seres sexuais e sexuados. Despertam, pois, para a sexualidade. E para sensações como o desejo e o prazer.
As sensações são então vividas com intensidade única. E as primeiras paixões, os primeiros amores arrebatadores e eternos, lançando os adolescentes numa montanha russa de oportunidades e riscos.
Emerge uma grande vontade de amar e ser amado, de ser respeitado, de fazer boa figura perante os pares. Procuram-se os caminhos para satisfazer essa vontade, mas o percurso é cheio de pressões e influências, gerando dúvidas e receios. Quando dar o passo? O “passo” é o da primeira experiência sexual, uma aventura que pode ser fantástica mas que deve ser motivada por opiniões amadurecidas, reflectidas, não empurrada pelo exemplo de outros.
O que importa é fazer escolhas saudáveis. Com liberdade para pensar, ouvir e decidir, para mudar de opinião, para dizer sim e para dizer não.
Pode ser difícil, mas é necessário, porque os rumos tomados na adolescência podem ter reflexos por toda a vida futura.
A sexualidade é natural, mas implica responsabilidade. É fonte de prazer, mas também uma porta aberta para riscos: como o de uma doença sexualmente transmissível ou o de uma gravidez não desejada. É que não acontece só aos outros…
O amor não basta: é preciso conhecer o próprio corpo, saber como funciona; é preciso esclarecer dúvidas e obter informação junto de fontes credíveis (as consultas para adolescentes nos centros de saúde, as linhas telefónicas de apoio, o médico ou o farmacêutico); é preciso evitar os riscos.
Trata-se de tomar decisões. Escutar os próprios sentimentos e desejos, respeitar e ser respeitado. Resistindo a pressões ou a chantagens emocionais, sem se deixar encurralar num beco sem saída. Dizendo não se, somados todos os prós e contras, sobrarem dúvidas. Ou dizendo sim se, tiver chegado o momento certo.
Ser adolescente é conquistar a autonomia, mas não a todo o preço. É fazer escolhas informadas, saudáveis e livres.
 
Comer e sofrer
Tudo muda na adolescência. Muda o corpo, mudam as relações e os afectos, os interesses e os gostos. E neste turbilhão de mudanças os adolescentes dão permeáveis a influências múltiplas, das geradas no seio do grupo a que se esforçam por pertencer às veiculadas pelos estereótipos de uma sociedade que cultiva a imagem como uma verdadeira ditadura.
Ser magro é quase um imperativo. Mas, numa altura em que o corpo ganha novos contornos, a caminho da feminilidade e da masculinidade, facilmente se cai na obsessão de perder quilos, mesmo quilos que não se têm a mais.
É comum entre os adolescentes uma imagem distorcida de si próprios que os faz mergulhar em comportamentos extremos, em que pontuam os distúrbios alimentares. São distúrbios quase sempre no feminino, porventura porque as raparigas são mais permeáveis às pressões sociais e culturais. O que não significa que os rapazes passem pela adolescência sem perturbações do foro alimentar — calcula-se que dez por cento também se deixam cair nas malhas da anorexia e da bulimia.
 
 
Anorexia — a rejeição dos alimentos
Um medo intenso de engordar é o que sentem os adolescentes que sofrem de anorexia nervosa, um distúrbio alimentar caracterizado pela rejeição dos alimentos. Aos seus olhos, o espelho devolve sempre uma imagem demasiado gorda, ainda que a balança indique o contrário. Desenvolvem então uma relação obsessiva com a comida, pesando ao grama o pouco que comem e contando até à exaustão as calorias.
Assim acontece sobretudo com raparigas, com um contexto que as torna particularmente vulneráveis: baixa auto-estima, alguns traços obsessivos, falta de confiança acerca do seu valor pessoal mas, paradoxalmente, padrões elevados de exigência e responsabilidade. A insegurança alimenta uma dificuldade visível em relacionarem-se com os outros. Em comum têm igualmente uma sensação de que não conseguem gerir a sua própria vida, de que não incapazes de tomar decisões, de que não conseguem atingir a perfeição — concentram-se, então, no corpo, procurando através dele o controlo que pensam ter-lhes escapado e, com ele, uma forma de se valorizarem.
Lançam-se, determinadas, numa luta contra os quilos, comendo cada vez menos. Perdem naturalmente quilos e, numa primeira fase, conseguem mesmo ser elogiadas. Porém, à medida que o tempo passa, emerge uma sensação de fome constante, que, em vez de as desanimar, as faz sentir que precisam ainda mais de força de vontade para emagrecer. Cada quilo perdido é encarado como uma vitória pessoal.
Mas uma vitória que lhes fragiliza a saúde e ameaça mesmo a vida. Quando os quilos perdidos correspondem a 15 ou 20% do peso normal, os danos podem já ser devastadores — pode não haver gordura corporal suficiente para manter os órgãos saudáveis. Órgãos como o coração, o fígado e os rins podem deixar de funcionar normalmente se a pessoa não comer o suficiente. O metabolismo corporal desacelera, causando quebras na pressão sanguínea, no ritmo cardíaco e nos movimentos respiratórios. A falta de energia instala-se, a dificuldade de concentração também. A anemia é frequente, nas raparigas o período menstrual cessa. O cabelo pode cair, as unhas ficam mais quebradiças. Nos casos mais severos, a anorexia pode conduzir a um cenário de desnutrição e até morte.
Todavia, quando confrontadas com o emagrecimento excessivo, as jovens tendem a negar, recusam a receber ajuda, entrando muitas vezes em conflito com os familiares. A anorexia causa igualmente danos emocionais — a obsessão com o peso impede que se concentrem em qualquer outra coisa, abrindo caminho ao isolamento, mas também potenciando sentimentos de culpa e depressão.
 
 
Delinquência alimentar
Tal como a anorexia, a bulimia é desencadeada pela insatisfação com o corpo, caracterizando-se pela alternância da ingestão compulsiva de alimentos com comportamentos compensatórios de purga, como vomitar, tomar laxantes ou diuréticos, fazer jejum e praticar exercício físico excessivo.
É também um fenómeno quase exclusivamente feminino, personificado por raparigas enclausuradas no seu drama e dominadas por um misto de angústia e de vergonha. Perseguindo o desejo urgente de serem mais magras, tornam-se verdadeiras delinquentes alimentares, na medida em que a ingestão obsessiva de alimentos altamente calóricos ocorre, tendencialmente, às escondidas. Transformam o quarto no seu refúgio, ali armazenando quantidades inacreditáveis de alimentos normalmente “proibidos” que devoram compulsivamente. São orgias alimentares que podem acontecer a qualquer hora do dia ou da noite, sem que, porém, delas obtenham a almejada satisfação. Nunca ficam saciadas, o que as impele a comer mais e mais. É a angústia que alimenta esta relação com a comida.
Todavia, a angústia não desaparece e, após cada sessão de empanturramento, um novo sentimento emerge: a vergonha. Daí à casa-de-banho é um passo: a adolescente bulímica provoca o vómito, usa e abusa dos laxantes. São comportamentos de purga que visam compensar os excessos, mas o que os move não é muito diferente — é a compulsão. E tudo acontece em segredo. Por vezes, a bulimia funciona como uma segunda etapa da anorexia, declarando-se durante ou após uma dieta restritiva. A jovem deixa de evitar os alimentos, mas acaba por não suportar a ideia de ter comido pelo que, de imediato, procura por todos os meios ver-se livre do que comeu. Além disso, as bulímicas partilham com as anorécticas algumas características psicológicas: apresentam uma auto-estima baixa, tendem a ser perfeccionistas mas também pouco afirmativas e com dificuldades no relacionamento social, acabando por se isolar. Do seu perfil costumam igualmente fazer parte antecedentes familiares ou pessoas de obesidade e de distúrbios de temperamento. Também no que toca a esta desordem alimentar o corpo acaba por sofrer as consequências — as dores de estômago são frequentes, nomeadamente devido aos vómitos constantes, os dentes perdem o esmalte, em resultado da presença excessiva de ácidos provocada também pelos vómitos, as glândulas salivares expandem-se de tal forma que o rosto parece inchado, os períodos menstruais cessam. Além disso, a purga permanente pode induzir um défice de potássio, abrindo caminho a problemas cardíacos e podendo mesmo resultar na morte.
A busca de um corpo — magro — é o denominador comum da anorexia e da bulimia. Mas é uma busca com consequências sérias a nível físico e psicológico, em que a própria vida está em jogo.
 
 
Experiências e dependências
Desafios e risco — são dois conceitos muito presentes na adolescência, conceitos que enformam muitos dos comportamentos com que rapazes e raparigas procuram quebrar os laços com a infância e iniciar-se no mundo dos adultos.
Fazem-no em grupo, porque a adolescência é também a idade da afirmação e da independência em relação aos pais e da necessidade de pertença a um colectivo de pares, irmanados pelos mesmos gostos e interesses. É com eles que se partilham vivências e experiências.
Cedo se fumam os primeiros cigarros. Acessíveis, mesmo agora que a lei proíbe a venda de tabaco a menores de 18 anos. Pode até estranhar-se o travo amargo que deixa na boca, mas o mais provável é que a experiência se renove ao ponto de se tornar um hábito. Quanto mais não seja para exibir maturidade num contexto social em que, não obstante as campanhas anti-tabágicas, fumar continua a ser um comportamento aceite.
Os cigarros fazem-se acompanhar geralmente das primeiras bebidas alcoólicas. Que se experimentam também por curiosidade e sob o impulso das sinergias de grupos. Nas saídas nocturnas que constituem uma das grandes provas de independência desta idade de transição circulam sobretudo as bebidas destiladas, mais do que a cerveja e muito mais do que o vinho. São bem conhecidas as histórias de shots bebidos uns atrás dos outros, pela noite dentro, com o desfecho anunciado da embriaguez e da ressaca no dia seguinte.
É certo que são excessos, mas isso não significa que adolescentes e jovens sejam alcoólicos. Não bebem por dependência, mas porque é socialmente aceite. Mas há um risco, documentado em estudos que dão conta de um início precoce do consumo de bebidas alcoólicas.
Precoces são, muitas vezes, também os primeiros passos no consumo das chamadas substâncias ilícitas – as drogas. No início, por curiosidade, uma curiosidade despertada por um amigo que descreve experiências incríveis, “viagens” libertadoras, êxtases nunca sonhados. São experiências relatadas, quase sempre, em ambientes de diversão, tanto mais que, nestas idades, o consumo de estupefacientes anda normalmente de mãos dadas com o convívio.
Da curiosidade à imitação é, então, um passo, dado com naturalidade numa altura da vida em que não há grande espaço para a diferença. E é fácil dar esse passo. A droga está acessível, circula socialmente, está presente onde estão os adolescentes. Não é por acaso que o primeiro consumo acontece cada vez mais cedo.
Não obstante, o facto de se experimentar não conduz necessariamente a uma dependência. Ela acontece quando o consumo é o principal objectivo e motivação na vida, quando tudo gira em seu redor. Já não se procura ser aceite, já não se procuram respostas, já não se procura desafiar os adultos: procura-se, simplesmente, a droga.
 
Jovens e o consumo de bebidas alcóolicas
 
Drogas há muitas
Sob a designação de droga albergam-se todas as substâncias psicoactivas – que alteram o humor, a percepção do ambiente externo ou a percepção do ambiente interno. Assim, o adolescente (qualquer consumidor, aliás) pode sentir-se eufórico, perder a noção da passagem do tempo ou focalizar-se em fantasias e imagens.
No entanto, nem todas as drogas actuam da mesma forma no organismo. As depressoras são aquelas que reduzem a estimulação fisiológica, reduzem a tensão e provocam relaxamento. Delas fazem parte o álcool (considerada uma droga lícita), os barbitúricos e as benzodiazepinas.
O álcool começa por causar desinibição, mas à medida que o nível de intoxicação aumenta vai-se evidenciando o seu efeito depressor. Em consequência, fica-se como que adormecido, a visão e o equilíbrio são afectados, o controlo muscular e a coordenação motora também. Tal como a concentração e a capacidade de discernimento, o que pode conduzir a comportamentos inapropriados.
Já os barbitúricos e as benzodiazepinas são tranquilizantes: em consumos ligeiros, provocam relaxamento e a sensação de “cabeça leve”, mas em doses elevadas provocam fala enrolada, ligeira euforia, sono e diminuição da coordenação motora.
A designação genérica de drogas abrange também os narcóticos, por definição substâncias derivadas do ópio, como a heroína. Quando consumidos, começam por provocar uma sensação de êxtase, seguida do entorpecimento dos sentidos e de um estado semelhante ao sono, mas em doses elevadas podem levar a paragem respiratória e, eventualmente, à morte. O seu uso prolongado causa dependência.
Também os estimulantes provocam estados de euforia, na medida em que aumentam o nível de actividade neurológica do centro nervoso responsável pelo prazer. Entre eles incluem-se as anfetaminas e a cocaína.
Tomadas oralmente, as anfetaminas dão origem a sensações de bem-estar, vigor e redução da fadiga, sendo que os efeitos surgem progressivamente pois são absorvidas lentamente pelo sistema digestivo. O seu uso prolongado desencadeia sintomas como a depressão, o abatimento e a fadiga e em doses elevadas pode provocar psicoses, bem como danos cerebrais (lesão de pequenos vasos sanguíneos, aumento da pressão sanguínea) e morte.
A cocaína actua igualmente sobre o humor, mas os seus efeitos são descritos como mais intensos, com sentimentos de energia, bem-estar e auto-confiança elevados. Quando consumida de forma regular, gera dependência, com sintomas de depressão. Outros riscos associados respeitam à possibilidade de bloqueio dos impulsos nervosos, o que pode ser fatal.
Diferente é o mecanismo de acção dos alucinogénos, cuja característica principal é a distorção das experiências sensoriais. Tudo o que se vê e ouve é alterado ou deformado — são as alucinações, em que a percepção não tem sustentação na realidade.
Entre estas substâncias incluem-se a cannabis e o LSD. A primeira afecta o humor e o funcionamento cognitivo, provocando sentimentos de euforia ligeira, mas podendo também degenerar em depressão. Já o segundo resulta em experiências sensoriais vívidas — tudo parece mais intenso, mas as mudanças de percepção tanto podem ser positivas como negativas, dando origem a “viagens” agradáveis ou a desfechos dramáticos.
A verdade é que, por mais tentador que seja embarcar na euforia, o consumo de qualquer substância psicoactiva pode originar sérios problemas. Pode conduzir a comportamentos que de forma consciente não se desejavam, com consequências para a própria vida.
Para um adolescente atraído pelo risco, pode ser difícil não embarcar. Mas, como em qualquer outra viagem, o melhor é informar-se sobre o destino e só depois decidir.
 
 

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